Bravura, Valentia… ou Cobardia?
October 25th, 2006 by nunoMuitas vezes oiço ou vejo menções às palavras bravura ou valentia para descrever e defender as actuações dos toureiros nas touradas.
À primeira vista até pode parecer que é apropriado ou justo usar tais palavras, especialmente porque sempre nos habituámos a ouvi-las neste contexto.
Ao imaginarmos um Homem a defrontar um touro podemos acreditar que este tem de ser muito corajoso, dotado de uma loucura heróica e poética. Afinal um touro é um animal bravo, feroz, pesa uns 500 Kg, tem uma força desmedida e uns cornos ameaçadores. Colocar-se à frente dele e ainda combatê-lo não é definitivamente para qualquer um! Um confronto leal e justo, em que o toureiro arrisca a vida a cada segundo.
O problema é que as touradas não são mais que um espectáculo de ilusionismo onde o que parece ser não o é, e as verdades não são mais que mentiras. Já tive a oportunidade de ouvir que as touradas são a arte de enganar o touro – grande mérito para um ser humano! – mas eu diria que as touradas não são mais do que a arte de torturar o touro e enganar algumas pessoas.
Obviamente que o touro não é um animal feroz nem agressivo. O touro é herbívoro, não é um predador, não caça ou mata, não ataca outros animais. Como tal, a sua reacção natural é fugir. Se o touro ataca, é como reacção a uma série de torturas e por não ter para onde fugir, ou seja, fá-lo como defesa.
Desde que o touro é retirado do campo, o seu habitat natural, onde era livre, dá-se todo um processo cujo objectivo e o resultado é debilitá-lo e enfurecê-lo.
Com o transporte para a praça e o aprisionamento nos curros, os touros perdem entre 40 a 50 Kg, devido ao stress do encarceramento.
É no transporte que começa a violência física: os touros são espancados e picados ao serem conduzidos.
Já nos curros, os cornos são-lhes cortados a sangue frio enquanto estão enjaulados e imobilizados. São colocadas protecções nos cornos, tudo para proteger o toureiro. O touro acabou de perder a sua única defesa e parte da sua orientação.
O barulho e os gritos das pessoas característicos do ambiente assustam o touro.
São administradas drogas e laxantes que lhes provocam diarreias. Untam-se os olhos com vaselina ou outros produtos irritantes que lhes dificultam a visão.
O touro é mantido às escuras até ser de repente, empurrados para a luz da arena.
O touro está extremamente assustado e enfraquecido. Já se encontra ferido e há muito que está em sofrimento. O touro fugiria se pudesse. Já todos vimos imagens do touro que entra a correr em pânico e salta para as bancadas…
Não é muito difícil apercebermo-nos das expressões e reacções de pânico e confusão manifestadas, desde que o touro entra na arena, e que vão aumentando com a tortura.
Fazer com que o touro dê umas corridas atrás de um cavaleiro ou realize umas investidas contra uma capa apenas serve para o cansar e levar à exaustão.
Durante a tourada e conforme as características desta, são espetadas no touro lanças, bandarilhas e outros ferros. Independentemente das características destes ferros ou arpões, todos provocam bastante dor e sofrimento, rasgando tecidos e carne, dilacerando músculos e vasos sanguíneos. As hemorragias em que o touro perde vários litros de sangue são bastantes evidentes. O touro é ainda acometido de febres imediatas.
As bandarilhas continuam espetadas (até o touro regressar ao curro onde são arrancadas a sangue frio), simples facto que aliado ao seu peso, contribuem para que com cada movimento do touro as feridas internas aumentem e o seu sofrimento se acentue.
Todas estas feridas e lesões impedem que o touro levante a cabeça e actue de maneira normal.
É diante de um touro moribundo que forcados mostram a sua bravura e matadores mostram a sua arte e valentia.
O toureiro – ser supostamente inteligente – está em cima do cavalo, usa armas, esconde-se atrás de protecções de madeira, tem para onde fugir, e é auxiliado por outros indivíduos em caso de necessidade.
A tourada não é mais do que um espectáculo viciado, totalmente manipulado, e feito à medida do Homem. Não tem nada de justo ou equilibrado, e muito menos de digno.
O vencedor é sempre o mesmo, e é anunciado à partida… tal como as vítimas.
Quantos toureiros morreram em touradas? 10 em 50 anos! E nos últimos anos? E em Portugal?
Provavelmente muitos menos que pessoas a jogarem futebol, e certamente muitos menos que a fazer surf, snowboard, ou outros quaisquer desportos chamados “radicais”, que se considera que envolvem bravura e que supostamente e explicitamente nada têm a ver com violência ou crueldade.
Em palcos onde há guerra ou violência, pode-se pensar em jornalistas, bombeiros, médicos, que não estando envolvidos na mesma, ou tentando salvar vidas, perdem a sua.
Nas touradas são sempre os touros a morrer (na arena ou não), e até os cavalos. É uma desproporção alucinante.
Sejamos realistas: a tourada não envolve riscos para os toureiros, é tudo controlado e condicionado.
E racionalmente analisando, cada um segue o seu caminho em direcção à sua actividade. Uma possível valentia é substituída por gosto, interesse, vontade, dedicação e acima de tudo experiência. Não temos de fazer todos o mesmo ou gostar das mesmas coisas, pelo que dizer “então vai lá tu” não serve de nada.
Maltratar, atacar, enfrentar qualquer animal (Humano ou não) quando se sabe que este não tem a mínima hipótese de ganhar, nem tão pouco defender-se, é pura cobardia.
As touradas não são mais que um hino à cobardia Humana.

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